Energia nuclear: ainda é preciso ter medo da tecnologia? Entenda

Ao falarmos sobre energia nuclear, é provável que muitas pessoas sintam arrepios. Os motivos são óbvios, já que grandes acontecimentos — e estragos — do passado foram causados por este tipo de tecnologia.

Ainda que a energia nuclear tenha ganhado uma conotação negativa nas últimas décadas — ainda mais após o acidente de Chernobyl na Ucrânia Soviética, em 1986 —, o assunto voltou à tona nos últimos tempos, trazendo o outro lado da moeda.

Mas afinal, quais as vantagens de utilizar a energia nuclear?

Como funciona?

Desde a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2021 (COP26), realizada em novembro do ano passado, o assunto passou a ser discutido com mais abertura. Segundo Rafael Mariano Grossi, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica, a tecnologia nuclear é parte da solução para o aquecimento global. “Não é uma panaceia, pode não ser para todos, mas já fornece mais de 25% da energia limpa. Sem ela, não teremos sucesso”, disse durante o evento.

Mas para saber os motivos que fazem o grupo acreditar na tecnologia, é preciso entender como esse tipo de energia funciona. O professor Claudio Geraldo Schön, titular no Departamento de Engenharia Metalúrgica e de Materiais da USP, explica que a energia nuclear é baseada na chamada reação de fissão — ou divisão — nuclear. No processo, ao ser ‘bombardeado’ com nêutrons, o núcleo de urânio é dividido em núcleos menores e produz nêutrons em excesso.

Assim, a energia é gerada por uma reação em cadeia: um átomo de urânio se fissiona no reator e produz novos nêutrons, que podem ser usados para fissionar outro átomo e assim por diante. Após a divisão dos átomos, ocorre uma liberação de energia, que é transformada em calor.

A partir daí, a geração de energia funciona no mesmo princípio de uma termelétrica. “A grande diferença entre uma usina nuclear e uma usina termoelétrica está justamente no fato de que se deve ter cuidado com os produtos radioativos gerados na reação de fissão”, explica Schön.

Medo

Atualmente, existem 447 reatores nucleares em operação no mundo, em 30 países, incluindo no Brasil, com duas em operação: Angra 1 e Angra 2.

Segundo o relatório Electricity Information, publicado pela International Energy Agency (IEA), em 2018, os reatores nucleares foram responsáveis por cerca de 10% da produção de energia no mundo, enquanto usinas convencionais de carvão, combustíveis líquidos e gás natural representaram 65,1% da geração total. Já as usinas hidrelétricas fizeram 16,6% e, por fim, a geração de energia proveniente de fontes renováveis somaram 5,6%.

A energia nuclear produz mais eletricidade em terra do que qualquer outra fonte de energia limpa, segundo o Nuclear Energy Institute (Shuttertock/Reprodução)

Para Schön, as pessoas ainda sentem medo ao falar sobre energia nuclear. “Existe, sim, o receio do uso de tecnologias nucleares, que vem da descoberta recente na história, dos efeitos nocivos das radiações ionizantes no corpo humano. No entanto, para desmistificar, é necessário compartilhar mais conhecimento e passar a ideia para a população de que a manipulação controlada de produtos radioativos seria segura”, explica.

Segundo ele, o uso da tecnologia tem inúmeras vantagens em relação às outras fontes de energia. “A geração nuclear não é suscetível a eventos climáticos extremos que atingem as hidrelétricas ou outros meios, como a geração solar ou eólica, por exemplo.”

Além disso, o urânio é um material de baixo custo e as usinas podem ser instaladas em áreas menores fornecendo energia conforme a demanda do momento. “Uma usina fornece energia de acordo com o prescrito pela operação, dependendo apenas do fornecimento de combustível, que inclusive, tem um consumo muito lento.”

Para se ter uma ideia, uma única pastilha de urânio gera a mesma energia que 22 caminhões tanques de óleo diesel. Ou seja, é necessária uma pequena quantidade de combustível para gerar muita energia.

Energia nuclear e as mudanças climáticas

Muito se tem falado sobre a emissão de gases de efeito estufa e, consequentemente, das mudanças climáticas. É a partir daí que surge um dos principais argumentos a favor da energia nuclear: a baixa emissão de dióxido de carbono (CO2), principalmente na extração de urânio.

Além disso, vale ressaltar que a energia nuclear produz mais eletricidade em terra do que qualquer outra fonte de energia limpa. Isso porque, para uma instalação padrão de 1.000 megawatts, é necessária apenas 1,6 quilômetro para a operação.

Segundo o Nuclear Energy Institute (NEI), um parque eólico precisa de pelo menos 360 vezes mais terra para produzir a mesma quantidade de energia. Ao todo, seriam necessárias 430 turbinas eólicas para substituir apenas um reator.

Angra 1 e Angra 2Angra 1 e Angra 2 (Divulgação/Eletronuclear)

Mas assim como qualquer outra fonte de energia, nem tudo são flores. Imagine, por exemplo, uma viagem de carro em comparação com uma viagem de avião. Este último é, de longe, o mais seguro meio de transporte atualmente, mas em casos de acidente, tem também o maior estrago. “Os riscos estão associados à manipulação de elementos radioativos, que podem ter severos efeitos sobre o corpo humano”, explica Claudio Schön.

“Justamente esse risco extremo, paradoxalmente, torna a geração nucleoelétrica uma das formas mais seguras de se produzir energia”, diz. Segundo ele, todo projeto nuclear é avaliado pelo seu impacto tanto ambiental quanto radiológico e uma das etapas do projeto é simular um acidente severo.

“Isso, naturalmente, não impede que acidentes aconteçam, mas a usina de Angra 1, por exemplo, está atingindo 40 anos de operação e nenhum acidente grave foi reportado, o mesmo ocorre com um grande número de reatores em operação no mundo”, justifica.

Futuro promissor

Diferente de outros países que também utilizam a energia nuclear como Japão e Alemanha, o Brasil produz o próprio Urânio, extraído em Caetité (BA). “Nós dominamos todas as fases de processamento do combustível e, com investimento, podemos nos tornar autossuficientes na produção e processamento do próprio combustível”, explica Schön. Para ele, essa vantagem garantiria um futuro extremamente promissor para a produção de energia no Brasil.

Reator Multipropósito BrasilProjeto do Reator Multipropósito Brasileiro (Comissão Nacional de Energia Nuclear/Reprodução)

Atualmente, um bom exemplo de projeto em energia nuclear no Brasil é o Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), que deve operar na cidade de Iperó, região de Sorocaba (SP). Com o investimento, o país deve se tornar autossuficiente na produção de radiofármacos usados na medicina nuclear, além de possibilitar maior avanço em pesquisas da área.

O RMB está na última fase de projeto e deverá entrar em operação em 2030.

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